Todo mundo sabe quando o pedágio vai aumentar, basta olhar para frente. A pista vira um canteiro de obras, na sua maioria, desnecessárias, apenas para justificar o índice, quase sempre muito acima da inflação.
Vale consertar o que já consertado, recapear o que já foi recapeado, pintar sobre o que tinha sido pintado, afinal o consumidor precisa pensar que paga o preço justo pelo serviço. Até inventaram o SemParar para facilitar para os donos das concessionárias deixando o consumidor acreditar que facilita para ele. Você paga a mais para eles fazerem serviço a menos.
Na política a coisa funciona do mesmo jeito. Todo mundo sabe que as eleições se aproximam quando as cidades viram um verdadeiro canteiro de obras. O presidente, o prefeito ou o governador que andavam desaparecidos começam a dar as caras em tudo quanto é noticiário, fora o ritual diário e pernóstico de levantar e beijar crianças.
Se as concessionárias negociam aumentos abusivos com os políticos que irão financiar nas próximas campanhas, os políticos fazem o mesmo com os lobistas que achacarão os empresários que os financiarão no pleito próximo. Em troca, serão concedidas todas as vantagens inimagináveis durante o governo seguinte.
E nós, consumidores-eleitores, passamos o tempo todo acreditando que esses indivíduos têm alguma coisa a acrescentar de bom ao nosso dia a dia. Na verdade, somos apenas um monte de trocados ou um dedo clicando nas urnas. Nossa vida é virtual, maquiada. Um pozinho aqui, uma tintazinha ali e nos rendemos ao asfalto liso e aos sorrisos de meia boca. Temos a trajetória que merecemos pagando pedágio para usar o que nossos impostos pagaram para construir.
Como o Brasil é o país da piada pronta, todo tipo de subterfúgio pode ser traduzido como falcatrua legalizada. E o povo? O povo é apenas um detalhe. Lembram-se da TRU (Taxa Rodoviária Única)? Como ela inviabilizava a construção de pedágios, transformaram a sigla e o imposto em IPVA (Imposto sobre Circulação de Veículos Automotores), ou seja, nós pagamentos um imposto para termos um carro e abrirmos espaço para pagar mais pelo que já pagamos em excesso.
A política é a arte da desfaçatez. Chegamos ao absurdo de os candidatos preferirem tomar multas por fazerem campanha antecipada. Qualquer um de nós, pobres mortais, perderia a CNH, caso atingíssemos a pontuação máxima. O que os políticos perdem se não há uma pontuação máxima de mau-caratismo? Maradona transformou uma jogada de mão, na mão de Deus. Será que Lula e Serra transformarão as multas em dízimo que os partidários deverão pagar para fazer parte do seu staff futuro?
E a imprensa? Bom, a imprensa assiste a tudo da mesma forma como assistiu ao gol de Maradona, de Túlio Maravilha, de Henry, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Relega-se ao simples ato de relatar o que está acontecendo e se dá até ao luxo de defender um deslize aqui, outra ali, como coisa de gênio político. Nunca na história desse país, a imprensa foi tão submissa aos ditames do governo. Talvez seja pelo fato de Lula tê-la ameaçado várias vezes com uma chinelada ou um coque.
A concessionária funciona exatamente como o partido. Calcula-se que, por trás do nome, haja um monte de gente. Essa gente não tem cara, não tem voz, mas tem dinheiro. Elas mandam em tudo, sob ou sobre a estrada. Se mandam na estrada, mandam no nosso destino, e só chegaremos ao fim, se o caminho estiver desimpedido. Ah! existem as vicinais. Realmente. Porém, são como os rios: propositalmente sujas, esburacadas, e darão na rodovia principal. Quem não paga, não pode usufruir. Quem foge de pagar, paga o preço da corrupção.
Em outubro, pagaremos o primeiro pedágio com a possibilidade de prosseguirmos sem precisarmos de socorro. Caso sejamos mais ousados, escolheremos a cabina para pagar o segundo, aí sim, precisando de sorte para chegarmos ao planejado. Com os candidatos que temos, com muita sorte, sorte mesmo, teremos chance de um dia não cairmos num buraco. Não ironia maior que elegermos para governar nossos destinos pessoas comprometidas com o que há de pior na política do nosso passado: a desfaçatez.
Por Luiz Cláudio Jubilato





