Se a prefeitura bobear, o carioca vai ser de novo vitimado por uma malandragem criada há mais de vinte anos, para engordar o cofrinho de empreiteiras que asfaltam as ruas do Rio. O truque é primário e foi descoberto pelo Jornal do Brasil (que era, então, um jornal) no início dos anos 1980. Coisa simples: colheu-se uma amostra do asfalto usado no recapeamento no Rio e igual bocado do que se empregava nas ruas no Sul da Flórida, região de temperaturas e regime de chuvas semelhantes.
Bingo! Embora a qualidade da base do asfalto, do betume, fosse a mesma, a mistura utilizada no Rio de Janeiro tinha cinco vezes mais areia. Um traço que, se fosse com cimento e destinado à construção civil, seria classificado como massa fraca. Não é outro o motivo por que nos últimos anos o asfalto novo nas ruas do Rio tem, com boa vontade, um ano de validade: seis meses antes e seis depois das eleições. Nada que Luiz Paulo Conde e Cesar Maia não tenham mostrado ao carioca ao longo de doze anos de espertas administrações.
Como o quilômetro de asfalto custa entre 500 e 800 mil reais (o primeiro preço é para ruas com sistema de drenagem e o segundo para os casos em que é necessário construí-lo), e a prefeitura bate o bumbo sobre o asfaltamento de 600 quilômetros de ruas (a chamada Operação asfalto liso), existe uma betoneira de dinheiro circulando pela cidade. O perigo é que nem a prefeitura, que encomendou o serviço, nem as empreiteiras que o executam ofereceram uma breve idéia do prazo de que o carioca dispõe para andar sobre o resultado.
Em alguns países da Europa empresas que realizam pavimentação de ruas e estradas são responsáveis por eventuais falhas durante períodos estabelecidos em contrato. Na França, reparos decorrentes do que aqui se chamaria “operação tapa-buraco” recebem um carimbo em baixo relevo com um número e a data em que são feitos. É a garantia de que até o nome do funcionário que executou a tarefa está registrado. Se o asfalto esfarelar e o buraco reabrir com a chuva não há dúvida de que alguém será chamado às falas.
O que aqui faz o poder público não há quem desconheça. Interessante, porém, é que disso pouco se fale numa cidade onde não faltam exemplos de pavimentação impecável. Em áreas privatizadas, como a ponte Rio-Niterói ou a BR-040 ou, ainda, a Linha Amarela, o asfalto é liso como uma táboa. Por que nessas pistas não se esboroa como no resto da cidade? Será que é porque os concessionários não estão nem aí para o próprio dinheiro ou porque sabem que têm obrigação de entregar mercadoria com qualidade?
O pedágio das vias expressas não é muito diferente do IPVA pago por donos de automóveis, ônibus e caminhões. Quem tem um carro médio, ano 2007, por exemplo, entrega ao estado quatro reais por dia pelo direito de sacudir o esqueleto pelas ruas do Rio. É o preço de uma passagem no pedágio na Linha Amarela. Quem trafega hoje pelas avenidas Vieira Souto, Delfim Moreira ou Américas já nem lembra que, como várias ruas do Centro e de Copacabana, foram recapeadas nos últimos meses da prefeitura de Cesar Maia. Estão um lixo. Talvez faça parte do legado da ditadura, mas na relação presente com o poder público a população se acostumou à obrigação de pagar e abriu mão do direito à qualidade nos serviços.
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